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    CAMPOS DE INVESTIGAÇÃO DA FILOSOFIA

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    CAMPOS DE INVESTIGAÇÃO DA FILOSOFIA

    Mensagem  Admin em Qui 20 Maio 2010, 14:14

    CAMPOS DE INVESTIGAÇÃO DA FILOSOFIA


    A Filosofia terá, no decorrer dos séculos, um conjunto de preocupações, indagações e interesses que lhe vieram de seu

    nascimento na Grécia.
    Assim, antes de vermos que campos são esses, examinemos brevemente os conteúdos que a Filosofia possuía na Grécia.

    Para isso, devemos primeiro, conhecer os períodos principais da Filosofia grega, pois tais períodos definiram os campos de

    investigação filosófica na Antiguidade.
    A história da Grécia costuma ser dividida pelos historiadores em quatro grandes fases ou épocas:
    1 – a da Grécia homérica, correspondente aos 400 anos narrados pelo poeta Homero, em seus dois grandes poemas, Ilíada e

    Odisséia;


    2 – a da Grécia arcaica ou dos sete sábios, do século VII ao século V antes de Cristo, quando os gregos criaram as cidades

    como Atenas, Esparta, Tebas, Megara, Samos, etc., e predominava a economia urbana, baseada no artesanato e no comércio;


    3 – a da Grécia clássica, nos séculos V e IV antes de Cristo, quando a democracia se desenvolve, a vida intelectual e

    artística entra no apogeu e Atenas domina a Grécia com seu império comercial e militar;


    4 – e, finalmente a época helenística, a partir do final do século IV antes de Cristo, quando a Grécia passa para o poderio

    do império de Alexandre da Macedônia e, depois, para as mãos do Império Romano, terminando a história de sua existência

    independente.


    Os períodos da Filosofia não correspondem exatamente a essas épocas, já que ela não existe na Grécia homérica e só

    aparece nos meados da Grécia arcaica. Entretanto, o apogeu da Filosofia acontece durante o apogeu da cultura e da sociedade

    gregas: portanto, durante a Grécia Clássica.
    Os quatros grandes períodos da Filosofia grega, nos quais seu conteúdo muda e se enriquece, são:


    1 – Período pré-socrático ou cosmológico, do final do século VII ao final do século V a.C., quando a Filosofia ocupa

    fundamentalmente com a origem do mundo e as causas das transformações na Natureza.


    2 – Período socrático ou antropológico, do final do século V e todo o século IV a.C., quando a Filosofia investiga as

    questões humanas, isto é, a ética, a política e as técnicas (em grego, ântropos quer dizer homem; por isso o período recebeu

    o nome de antropológico).


    3 – Período sistemático, do final do século IV ao final do século III a.C., quando ma Filosofia busca reunir e

    sistematizar tudo quanto foi pensado sobre a cosmologia e a antropologia, interessando-se, sobretudo em mostrar que tudo pode

    ser objeto do conhecimento filosófico, desde que as leis do pensamento e de suas demonstrações estejam firmemente

    estabelecidas para oferecer os critérios da verdade e da ciência.


    4 – Período helenístico ou grego-romano, do final do século III a.C., até o século VI depois de Cristo. Nesse longo

    período, que já alcança Roma e o pensamento dos primeiros Padres da Igreja, a Filosofia se ocupa, sobretudo com as questões

    da ética, do conhecimento humano e das relações entre o homem e a Natureza e de ambos com Deus.


    FILOSOFIA GREGA

    Pode-se perceber que os dois primeiros períodos da Filosofia grega têm como referencia o filosofo Sócrates de Atenas,

    donde a divisão em Filosofia pré-socrática e socrática.


    PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICO OU COSMOLÓGICO

    Os principais filósofos pré-socráticos foram:
    • Filósofos da Escola Jônica: Tales de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso;
    • Filósofos da Escola Itálica: Pitágoras de Samos, Filolau de Crotona e Árquitas de Tarento;
    • Filósofos da Escola Eleata: Parmênides de Eléia e Zanão de Eléia;
    • Filósofos da Escola da Pluralidade: Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômena, Leucipo de Abdera e Demócrito

    de Abdera.


    As principais características da cosmologia são:
    • É uma explicação racional e sistemática sobre a origem, ordem e transformação da Natureza, da qual os seres humanos

    fazem parte, de modo que, ao explicar a Natureza, a Filosofia também explica a origem e as mudanças dos seres humanos.
    • Afirma que não existe criação do mundo, isto é, nega que o mundo tenha surgido do nada (como é o caso, por exemplo,

    na religião judaico-cristã, na qual Deus cria o mundo do nada). Por isso diz: “Nada vem do nada e nada volta ao nada”. Isto

    significa: a) que o mundo, ou a Natureza, é eterno; b) que no mundo, ou na Natureza, tudo se transforma em outra coisa sem

    jamais desaparecer, embora a forma particular que uma coisa possua desapareça com ela, mas não na sua matéria.
    • O fundo eterno, perene, imoral, de onde tudo nasce e para onde tudo volta é invisível para os olhos do corpo e

    visível para o olho do espírito, isto é, para o pensamento.
    • O fundo eterno, perene, imortal e imperecível de onde tudo brota e para onde tudo retorna é o elemento primordial da

    Natureza e chama-se physis (em grego, physis vem de um verbo que significa fazer surgir, fazer brotar, fazer nascer,

    produzir). A physis é a Natureza eterna e em perene transformação.
    • Afirma que, embora a physis (elemento primordial eterno) seja imperecível, ela dá origem a todos os seres

    infinitamente variados e diferentes do mundo, seres que, ao contrário do principio gerador, são perecíveis ou mortais. A

    physis é imortal e as coisas físicas são mortais.
    • Afirma que todos os seres, além de serem gerados e de serem mortais, são seres em contínua transformação, mudando de

    qualidade (por exemplo, o branco amarelece, acinzenta, enegrece; o negro acinzenta, embranquece; o novo envelhece; o quente

    esfria; o frio esquenta; o seco fica úmido; o úmido seca; o dia se torna noite; a noite se torna dia; a primavera cede lugar

    ao verão, que cede lugar ao outono, que cede lugar ao inverno; o saudável adoece; o doente se cura; a criança cresce; a

    árvore vem da semente e produz sementes, etc.) e mudando de qualidade (o pequeno cresce fica grande; o grande diminui e fica

    pequeno; o longe fica perto se eu for até ele, ou se as coisas distantes chegarem até mim, um rio aumenta de volume na cheia

    e diminui na seca, etc.). Portanto, o mundo está numa mudança contínua, sem por isso perder sua forma, sua ordem e sua

    estabilidade.
    A mudança – nascer, morrer, mudar de qualidade ou de quantidade – chama-se movimento e o mundo está em

    movimento permanente. A Natureza é mobilidade permanente.
    O movimento do mundo chama-se devir e o devir segue leis rigorosas que o pensamento conhece. Essas são

    as que mostram que toda mudança é passagem de um estado ao seu contrário: dia-noite, claro-escuro, quente-frio, seco-úmido,

    novo-velho, pequeno-grande, bom-mau, cheio-vazio, um-muitos, etc., e também no sentido inverso. O devir é,

    portanto, a passagem contínua de uma coisa ao seu estado contrário e essa passagem não é caótica, mas obedece a leis

    determinadas pela physis ou pelo principio fundamental do mundo.
    Os diferentes filósofos escolheram diferentes physis, isto é, cada filósofo encontrou motivos e razões para dizer

    qual era o princípio eterno e imutável que está na origem da Natureza e de suas transformações. Assim, Tales dizia que o

    princípio era a água ou o úmido; Anaximandro considerava que era o ilimitado sem qualidades definidas; Anaxímenes, que era o

    ar ou o frio; Heráclito afirmou que era o fogo; Leucipo e Demócrito disseram que eram os átomos. E assim por diante.


    PERÍODO SOCRÁTICO OU ANTROPOLÓGICO

    Com o desenvolvimento das cidades, do comércio, do artesanato e das artes militares, Atenas tornou-se o centro da

    vida social, política e cultural da Grécia, vivendo seu período de esplendor, conhecido como o Século de Péricles.
    É a época de maior florescimento da democracia. A democracia grega possuía, entre outras, duas características de

    grande importância para o futuro da Filosofia.
    Em primeiro lugar, a democracia afirmava a igualdade de todos os homens adultos perante as leis e o direito de todos

    a participar diretamente do governo da cidade, da polis.
    Em segundo lugar, e como conseqüência, a democracia, sendo direta e não por eleição de representantes, garantia a

    todos a participação no governo, e os que dele participavam tinham o direito de exprimir e defender em público suas opiniões

    sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, a figura política do cidadão.
    Ora, para conseguir que a sua opinião fosse aceita nas assembléias, o cidadão precisava saber falar e ser capaz de

    persuadir. Com isso, uma mudança profunda vai ocorrer na educação grega.
    Quando não havia democracia, mas dominavam as famílias aristocráticas, senhora de terras, o poder lhes pertencia.

    Essas famílias, valendo-se dos dois grandes poetas gregos, Homero e Hesíodo, criaram um padrão de educação, próprio dos

    aristocratas. Esse padrão afirmava que o homem ideal ou perfeito era o guerreiro belo e bom. Belo: seu corpo era formado pela

    ginástica, pela dança e pelos jogos de guerra, imitando os heróis da guerra de Tróia (Aquiles, Heitor, Ajax, Ulisses). Bom:

    seu espírito era formado enquanto Homero e Hesíodo, aprendendo as virtudes admiradas pelos deuses e praticadas pelos heróis,

    a principal delas sendo a coragem diante da morte, da guerra. A virtude era a arete (excelência e

    superioridade), própria dos melhores, os aristoi.
    Quando, porém, a democracia se instala e o poder vai sendo retirado dos aristocratas, esse ideal educativo ou

    pedagógico também vai sendo substituído por outro. O ideal da educação do Século de Péricles é a formação do cidadão. A Arete

    é a virtude cívica.
    Ora, qual é o momento em que o cidadão mais aparece e mais exerce sua cidadania? Quando opina, discute, delibera e

    vota nas assembléias. Assim, a nova educação estabelece como padrão ideal a formação do bom orador, isto é, aquele que saiba

    falar em público e persuadir os outros na política.
    Para dar aos jovens essa educação, substituindo a educação antiga dos poetas, surgiram, na Grécia, os

    sofistas, que são os primeiros filósofos do período socrático. Os sofistas mais importantes foram: Protágoras

    de Abdera, Górgias de Leontini e Isócrates de Atenas.
    Que diziam e faziam os sofistas? Diziam que os ensinamentos dos filósofos cosmologistas estavam repletos de erros e

    contradições e que não tinham utilidade para a vida da polis. Apresentavam-se como mestres de oratória ou de retórica,

    afirmando ser possível ensinar aos jovens tal arte para que fossem bons cidadãos.
    Que arte era esta? A arte da persuasão. Os sofistas ensinavam técnicas de persuasão para os jovens, que aprendiam a

    defender a posição ou opinião. A depois a posição ou opinião contrária, não-A, de modo que, numa assembléia, soubessem ter

    fortes argumentos a favor ou contra uma opinião e ganhassem a discussão.
    O filosofo Sócrates, considerado o patrono da Filosofia, rebelou-se contra os sofistas, dizendo que não eram

    filósofos, pois não tinham amor pela sabedoria nem respeito pela verdade, defendendo qualquer idéia, se isso fosse

    vantajoso. Corrompiam o espírito dos jovens, pois faziam o erro e a mentira valer tanto quanto a verdade.
    Como homem de seu tempo, Sócrates concordava com os sofistas em um ponto: por um lado, a educação antiga do guerreiro

    belo e bom já não atendia às exigências da sociedade grega, e, por outro lado, os filósofos cosmologistas defendiam idéias

    tão contrárias entre si que também não eram uma fonte segura para o conhecimento verdadeiro.
    Discordando dos antigos poetas, dos antigos filósofos e dos sofistas, o que propunha Sócrates?
    Propunha que, antes de querer conhecer a Natureza e antes de querer persuadir os outros, cada um deveria, primeiro e

    antes de tudo, conhecer-se a si mesmo. A expressão “conhece-te a ti mesmo”, que estava gravado no pórtico do templo de Apolo,

    patrono grego da sabedoria, tornou-se a divisa de Sócrates.
    Por fazer do autoconhecimento ou do conhecimento que os homens têm de si a condição de todos os outros conhecimentos

    verdadeiros, é que se diz que o período socrático é antropológico, isto é, voltado para o conhecimento do homem,

    particularmente de seu espírito e de sua capacidade para conhecer a verdade.
    O retrato que a história da Filosofia possui de Sócrates foi traçado por seu mais importante aluno e discípulo, o

    filosofo ateniense, Platão.
    Que retrato Platão nos deixa de seu mestre, Sócrates?
    O de um homem que andava pelas ruas e praças de Atenas, pelo mercado e pela assembléia indagado a cada um: “Você sabe

    o que é isso que você está dizendo?”, “Você sabe o que é isso em que você acredita?”. “Você acha que está conhecendo

    realmente aquilo em que acredita aquilo em que está pensando, aquilo que está dizendo?”. “Você diz”, falava Sócrates, “que a

    coragem é importante, mas: o que é a coragem? Você acredita que a justiça é importante, mas: o que é a justiça? Você diz que

    ama as coisas e as pessoas belas, mas o que é a beleza? Você crê que seus amigos são a melhor coisa que você tem, mas: o que

    é a amizade?”.
    Sócrates fazia perguntas sobre as idéias, sobre os valores nos quais os gregos acreditavam e que julgavam conhecer.

    Suas perguntas deixavam os interlocutores embaraçados, irritados, curiosos, pois, quando tentavam responder ao célebre “o que

    é?”, descobriam surpresos, que não sabiam responder e que nunca tinham pensado em suas crenças, seus valores e suas

    idéias.
    Mas o pior não era isso. O pior é que as pessoas esperavam que Sócrates respondesse por elas ou para elas, que

    soubesse as respostas às perguntas, como os sofistas pareciam saber, mas Sócrates, para desconcerto geral, dizia: “Eu também

    não sei, por isso estou perguntando”. Donde a famosa expressão atribuída a ele: “Sei que nada sei”.
    A consciência da própria ignorância é o começo da Filosofia. O que procurava Sócrates? Procurava a definição daquilo

    que uma coisa, uma idéia, um valor é verdadeiramente. Procurava a essência verdadeira da coisa, da idéia, do valor.

    Procurava o conceito e não a mera opinião que temos de nós mesmos, das coisas, das idéias e dos valores.
    Qual a diferença entre uma opinião e um conceito? A opinião varia de pessoa para pessoa, de lugar para lugar, de

    época para época. É instável, mutável depende de cada um, de seus gostos e preferências. O conceito, ao contrario, é uma

    verdade intemporal, universal e necessária que o pensamento descobre, mostrando que é a essência universal, intemporal e

    necessária de alguma coisa.
    Por isso, Sócrates não perguntava se tal ou qual coisa era bela – pois nossa opinião sobre ela pode variar – e sim: O

    que é a beleza? Qual é a essência ou o conceito do belo? Do justo? Do amor? Da amizade?
    Sócrates perguntava: que razões rigorosas você possui para dizer o que diz e para pensar o que pensa? Qual é o

    fundamento racional daquilo que você fala e pensa?
    Ora, as perguntas de Sócrates se referiam a idéias, valores, práticas e comportamentos que os atenienses julgavam

    certos e verdadeiros em si mesmos e por si mesmos. Ao fazer suas perguntas e suscitar dúvidas, Sócrates os fazia pensar não

    só sobre si mesmos, mas também sobre a pólis. Aquilo que parecia evidente acabava sendo percebido como duvidoso e

    incerto.
    Sabemos que os poderosos têm medo do pensamento, pois o poder é mais forte se ninguém pensar, se todo mundo aceitar

    as coisas como elas são, ou melhor, como nos dizem e nos fazem acreditar que elas são. Para os poderosos de Atenas, Sócrates

    tornara-se um perigoso, pois fazia a juventude pensar. Por isso, eles o acusaram de desrespeitar os deuses, corromper os

    jovens e violar as leis. Levando perante a assembléia, Sócrates não se defendeu e foi condenado a tomar um veneno – a cicuta

    – e obrigado a suicidar-se.
    Sócrates nunca escreveu. O que sabemos de seu pensamento encontra-se nas obras de seus vários discípulos, e Platão

    foi o mais importante deles. Se reunimos o que esse filósofo escreveu sobre os sofistas e sobre Sócrates, além da exposição

    de suas próprias idéias, poderemos apresentar como características gerais do período socrático:
    • A Filosofia se volta para as questões humanas no plano da ação, dos comportamentos, das idéias, das crenças, dos

    valores e, portanto, se preocupa com as questões morais e políticas.
    • O ponto de partida da Filosofia é a confiança no pensamento ou no homem como um ser racional, capaz de conhecer-se a

    si mesmo e, portanto, capaz de reflexão. Reflexão é a volta que o pensamento faz sobre si mesmo para conhecer-se; é a

    consciência conhecendo-se a si mesma como capacidade para conhecer as coisas, alcançando o conceito ou a essência delas.
    • Como se trata de conhecer a capacidade de conhecimento do homem, a preocupação se volta para estabelecer

    procedimentos que nos garantam que encontramos a verdade, isto é, o pensamento deve oferecer a si mesmo caminhos próprios,

    critérios próprios e meios próprios para saber o que é o verdadeiro e como alcançá-lo em tudo o que investiguemos.
    • A Filosofia está voltada para a definição das virtudes morais e das virtudes políticas, tendo como objeto central de

    suas investigações a moral e a política, isto é, as idéias e práticas que norteiam os comportamentos dos seres humanos tanto

    como indivíduos quanto como cidadãos.
    • Cabe à Filosofia, portanto, encontrar a definição, o conceito ou a essência dessas virtudes, para além da variedade

    das opiniões, para além da multiplicidade das opiniões contrárias e diferentes. As perguntas filosóficas se referem, assim, a

    valores como a justiça, a coragem, a amizade, a piedade, o amor, a beleza, a temperança, a prudência, etc., que constituem os

    ideais do sábio e do verdadeiro cidadão.
    • É feita, pela primeira vez, uma separação radical entre, de um lado, a opinião e as imagens das coisas,

    trazidas pelos nossos órgãos dos sentidos, nossos hábitos, pelas tradições, pelos interesses e, de outro lado, as

    idéias. As idéias se referem à essência íntima, invisível, verdadeira das coisas e só podem ser alcançados pelo

    pensamento puro, que afasta os dados sensoriais, os hábitos recebidos, os preconceitos, as opiniões.
    • A reflexão e o trabalho do pensamento são tomados como uma purificação intelectual, que permite ao espírito humano

    conhecer a verdade invisível, imutável, universal e necessária.
    • A opinião, as percepções e imagens sensoriais são consideradas falsas, mentirosas, mutáveis, inconsistentes,

    contraditórias, devendo ser abandonada para que o pensamento siga seu verdadeiro caminho próprio no conhecimento

    verdadeiro.
    • A diferença entre os sofistas, de um lado, e Sócrates e Platão do outro, é dada pelo fato de que os sofistas aceitam

    a validadedas opiniões e das percepções sensoriais e trabalham com elas para produzir argumentos de persuasão, enquanto

    Sócrates e Platão consideram as opiniões e as percepções sensoriais, ou imagens das coisas, como fonte de erro, mentira e

    falsidade, formas imperfeitas do conhecimento que nunca alcançam a verdade plena da realidade.



    PERÍODO SISTEMÁTICO

    Este período tem como principal nome o filósofo Aristóteles de Estagira, discípulo de Platão.
    Passados quase quatro séculos de Filosofia, Aristóteles apresenta, nesse período, uma verdadeira enciclopédia de todo

    o saber que foi produzido e acumulado pelos gregos em todos os ramos do pensamento e da prática considerando essa totalidade

    de saberes como sendo a Filosofia. Esta, portanto, não é um saber específico sobre algum assunto, mas uma forma de conhecer

    todas as coisas, possuindo procedimentos diferentes para cada campo de coisas que acontece.
    Além de a Filosofia ser o conhecimento da totalidade dos conhecimentos e práticas humanas, ela também estabelece uma

    diferença entre esses conhecimentos, distribuindo-os numa escala que vai dos mais simples e inferiores aos mais complexos e

    superiores. Essa classificação e distribuição dos conhecimentos fixou, para o pensamento ocidental, os campos de investigação

    da Filosofia como totalidade do saber humano.
    Cada saber, no campo que lhe é próprio, possui seu objeto especifico procedimentos específicos para sua aquisição e

    exposição, formas próprias de demonstração e prova. Cada campo do conhecimento é uma ciência (ciência em grego é episteme).
    Aristóteles afirma que, antes de um conhecimento constituir seu objeto e seu campo próprio, seus procedimentos

    próprios de aquisição e exposição, de demonstração e de prova, deve, primeiro, conhecer as leis gerais que governam o

    pensamento, independentemente do conteúdo que possa vir a ter.
    O estudo das formas gerais do pensamento, sem preocupação com seu conteúdo, chama-se lógica, e Aristóteles foi o

    criador da lógica como instrumento do conhecimento em qualquer campo do saber.
    A lógica não é uma ciência, mas o instrumento para a ciência e, por isso, na classificação das ciências feitas por

    Aristóteles, a lógica não aparece, embora ela seja indispensável para a Filosofia e, mais tarde, tenha-se tornado um dos

    ramos específicos dela.


    OS CAMPOS DO CONHECIMENTO FILOSÓFICO

    Classificação aristotélica:
    • Ciências produtivas: ciências que estudam as práticas produtivas ou as técnicas, isto é, as ações humanas cuja

    finalidade está para além da própria ação, pois a finalidade é a produção de um objeto, de uma obra. São elas: arquitetura

    (cujo fim é a edificação de alguma coisa), economia (cujo fim é a produção agrícola, o artesanato e o comércio, isto é,

    produtos para a sobrevivência e para o acúmulo de riquezas), medicina (cujo fim é produzir a saúde ou a cura), pintura,

    escultura, poesia, teatro, oratória, arte da guerra, da caça, da navegação, etc. Em suma, todas as atividades humanas

    técnicas e artísticas que resultam num produto ou numa obra.
    • Ciências práticas: ciências que estudam as práticas humanas enquanto ações que têm nelas mesmas seu próprio

    fim, isto é, finalidade da ação se realiza nela mesma, é o próprio ato realizado. São elas: ética, em que a ação é realizada

    pela vontade guiada pela razão para alcançar o bem do individuo, sendo este bem as virtudes morais (coragem, generosidade,

    fidelidade, lealdade, clemência, prudência, amizade, justiça, modéstia, honradez, temperança); e política, em que a ação é

    realizada pela vontade guiada pela razão para ter como fim o bem da comunidade ou o bem comum.
    Para Aristóteles, como para todo o grego da época clássica, a política é superior à ética, pois a verdadeira liberdade, sem a

    qual não pode haver vida virtuosa, só é conseguida na polis. Por isso, a finalidade da política é a vida justa, a vida boa e

    bela, a vida livre.
    • Ciências teoréticas, contemplativas ou teóricas: são aquelas que estudam coisas que existem independentemente

    dos homens e de suas ações e que, não tendo sido feitas pelos homens, só podem ser contempladas por eles. Theoria, em grego,

    significa contemplação da verdade. O que são as coisas que existem por si mesmas e em si mesmas, independentes de nossa ação

    fabricadora (técnica) e de nossa ação moral e política? São as coisas da Natureza e as coisas divinas. Aristóteles, aqui,

    classifica também por graus de superioridade as ciências teóricas, indo da mais inferior à superior:
    1. Ciências das coisas naturais submetidas à mudança ou ao devir: física, biologia, meteorologia, psicologia (pois a

    alma, que em grego se diz psychê, é um ser natural, existindo de formas variadas em todos os seres vivos, plantas, animais e

    homens);
    2. Ciência das coisas naturais que não estão submetidas à mudança ou ao devir: as matemáticas e a astronomia (os gregos

    julgavam que os astros eram eternos e imutáveis);
    3. Ciências da realidade pura, que não é nem natural mutável, nem natural imutável, nem resultado da ação humana, nem

    resultado da fabricação humana. Trata-se daquilo que deve haver em toda e qualquer realidade, seja ela natural, matemática,

    ética, política ou técnica, para ser realidade. É o que Aristóteles chama de ser ou substância de tudo o que

    existe. A ciência teórica que estuda o puro ser se chama metafísica.
    4. Ciência teórica das coisas divinas que são a causa e a finalidade de tudo o que existe na Natureza e no homem. As

    coisas divinas são chamadas de theion e, por isso, esta última ciência se chama teologia.
    A Filosofia, para Aristóteles, encontra seu ponto mais alto na metafísica e na teologia, de onde derivam todos os outros

    conhecimentos.
    A partir da classificação aristotélica, definiu-se, no correr dos séculos, o grande campo da investigação filosófica,

    campo que só seria desfeito no século XIX de nossa era, quando as ciências particulares se foram separando do tronco geral da

    Filosofia. Assim, podemos dizer que os campos de investigação da Filosofia são três:
    1. O do conhecimento da realidade última de todos os seres, ou da essência de toda realidade. Como, em grego, ser

    se diz on e seres se diz ta onta, este campo é chamado de ontologia (que, na linguagem de

    Aristóteles, se formava com a metafísica e a teologia)
    2. O do conhecimento das ações humanas ou dos valores e das finalidades da ação humana: das ações que têm em si mesmas

    sua finalidade. A ética e a política, ou a vida moral (valores morais) e a vida política (valores políticos); e das ações que

    têm sua finalidade num produto ou numa obra: as técnicas e as artes e seus valores (utilidade, beleza, etc)
    3. O conhecimento da capacidade humana de conhecer, isto é, o conhecimento do próprio exercício. Aqui, distinguem-se: a

    lógica, que oferece as leis gerais do pensamento ; a teoria do conhecimento, que oferece os procedimentos pelos quais

    conhecemos; as ciências propriamente ditas e o conhecimento do conhecimento científico, isto é, a epistemologia.
    Ser ou realidade, prática ou ação segundo valores, conhecimento do pensamento em suas leis gerais e em suas leis específicas

    em cada ciência: eis os campos da atividade ou investigação filosófica.


    PERÍODO HELENíSTICO

    Trata-se do último período da Filosofia antiga, quando a polis grega desapareceu como centro político, deixando de

    ser referencia principal dos filósofos, uma vez que a Grécia encontra-se sob o domínio do Império Romano. Os filósofos dizem,

    agora, que o mundo é sua cidade e que são cidadãos do mundo. Em grego, mundo se diz cosmos e esse período é chamado o

    das Filosofia cosmopolita.
    Essa época da Filosofia é constituída por grandes sistemas ou doutrinas, isto é, explicações totalizantes sobre a

    Natureza, o homem, as relações entre ambos e deles com a divindade (esta, em geral, pensada como Providência divina que

    instaura e conserva a ordem universal). Predominam preocupações com a ética – pois os filósofos já não podem ocupar-se

    diretamente com a política - , a física, a teologia e a religião.
    Datam desse período quatro grandes sistemas cuja influência será sentida pelo pensamento cristão, que começa a

    formar-se nessa época: estoicismo, epicurismo, ceticismo e neoplatonismo.
    A ampliação do Império Romano, a presença crescente de religiões orientais no Império, os contatos comerciais e

    culturais entre o ocidente e oriente, fizeram aumentar os contatos dos filósofos helenistas com a sabedoria oriental. Podemos

    falar numa orientação da Filosofia, sobretudo nos aspectos místicos e religiosos.

      Data/hora atual: Sab 18 Nov 2017, 03:03